Empreender se tornou a solução para muitos brasileiros aposentados que recebem valores insuficientes para o próprio sustento e de seus familiares.

Aos 58 anos, a professora aposentada Carmen Lúcia Pereira acaba de abrir uma empresa no Rio de Janeiro especializada em construção e reforma de calçadas. Já ter passado dos 50 anos não foi um empecilho para a empreendedora embarcar no negócio, pelo contrário: para ela, ter a própria empresa é uma forma de complementar a renda em um mercado de trabalho competitivo, além de proporcionar uma ocupação e oferecer um serviço diferenciado, relata.

“Eu preciso mesmo, preciso me sustentar, porque o que eu ganho como aposentada nunca dá, nunca deu. Eu tenho que pagar minhas despesas, tenho que trabalhar mesmo, não posso parar (…). Não tem espaço para mim nessa idade hoje no mercado e eu sempre tive essa coisa de fazer, essa criatividade, essa angústia de ideias”, relata.

Com o envelhecimento da população brasileira, o empreendedorismo se torna importante fator de manutenção da parcela da população de mais idade na economia ativa, avalia Luiz Barretto, presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). O G1 ouviu empreendedores após os 50 anos e especialistas para dar dicas a quem quer entrar no mundo dos negócios nessa fase da vida.

Dicas para empreender após os 50 anos

Experiência
Abrir um negócio no mesmo ramo em que se trabalhou é uma vantagem. A experiência profissional anterior pode ser usada no desenvolvimento do próprio negócio. Pessoas mais maduras também costumam estar menos sujeitas à ansiedade e, muitas vezes, acostumadas a trabalhar sob pressão

Planejamento
As orientações básicas são as mesmas para todos os empreendedores: elaborar um bom plano de negócios, estudar o mercado e buscar capacitação. O Sebrae, por exemplo, oferece apoio. Quanto mais planejamento, melhores as chances do negócio prosperar

Prazer no trabalho
Uma das vantagens está na possibilidade de se dedicar a uma atividade de que o empreendedor realmente goste (caso não tenha sido assim na vida como funcionário). Pense nas coisas que gosta de fazer e avalie formas de ganhar dinheiro com elas

Diferencial
Independentemente da idade do empreendedor, é preciso pensar em um produto ou serviço que tenha demanda no mercado. Não se deve deixar de buscar a inovação. É preciso estar atento às tendências, investir em novas tecnologias, buscar negócios que sejam sustentáveis nos aspectos ambiental, econômico e social

Necessidade
A desvantagem de qualquer empreendimento, seja liderado por um jovem ou pessoa mais velha, é quando é fruto de uma necessidade de sobrevivência e não apenas por oportunidade. É preciso fazer uma análise para verificar qual é o seu perfil. O Sebrae tem um curso, chamado Empretec, que trabalha a atitude empreendedora e pode ajudar nesses casos

Dedicação
Abrir uma empresa exige coragem e determinação em qualquer idade. É preciso arriscar, planejar e investir dinheiro e tempo em um negócio

“O empreendedor com mais idade, em geral, acumula experiência profissional e tem um comportamento mais seguro e de menor propensão ao risco, com mais planejamento”, avalia Barretto. Para ele, contudo, abrir uma empresa exige coragem e determinação em qualquer idade. “Independente da faixa etária, todos os empreendedores são corajosos por natureza. É preciso arriscar, planejar e investir, não apenas dinheiro, mas muito tempo de dedicação em um negócio”, orienta.

Carmen, por exemplo, afirma que todo trabalho a move por um motivo pessoal que traga algum retorno que não só o financeiro. “É uma coisa que me encanta, eu gosto também das outras coisas, de ficar em casa, de fazer um ‘bordadinho’. Mas gosto também de fazer um trabalho que fique para sempre, essa questão do conforto da cidade, da acessibilidade. (…) Eu quero sempre acrescentar alguma coisa a mais”, diz, com relação à criação da empresa de reforma de calçadas.

Historicamente, a parcela da população de 55 a 64 anos tem menor participação de novos empreendedores do que as demais. Em 2012, 8,3% da população dentro dessa idade estava envolvida na criação de um novo negócio no país, de acordo com a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) de 2012, feita pelo Sebrae. A maior participação era na parcela da população de 25 a 34 anos, de 19,2%.

Para Barretto, contudo, é natural que depois de certa idade menos pessoas tenham essa disposição para iniciar um novo negócio na comparação com faixas etárias mais jovens. “A diferença costuma ser de comportamento. Um jovem empreendedor, normalmente é mais impetuoso e disposto a assumir riscos e a inovar”, diz. Ele afirma, contudo, que empreender sempre vai envolver riscos, mas um planejamento “sólido” pode minimizá-los.

Aposentada há cerca de dez anos, a empreendedora Carmen, por exemplo, relata que o processo de pesquisa para a criação da Espaço Calçada Z, inaugurada em meados de fevereiro, demorou aproximadamente um ano e meio.

A ideia de criar a empresa surgiu em uma caminhada pelo Rio de Janeiro, onde mora. “Eu vi o chão da cidade, com as calçadas todas esburacadas.” Ela fez cursos na prefeitura, visitou canteiros de obras e feiras de pedras, além de um curso de gestão, onde aprendeu a desenvolver um plano de negócio. “O curso [de gestão] foi fundamental, eu estava com muito conhecimento acumulado e não sabia como aplicar. Me deu coragem”, revela. Como não conseguiu financiamento no banco, pegou um pequeno empréstimo de R$ 30 mil com um parente para dar início ao negócio. Atualmente, a empresa está em fase de captação e desenvolvimento dos primeiros projetos.

Uma das especialidades é o acabamento com pedras portuguesas, mas a empresária afirma que enxerga outras oportunidades. “Penso em fazer praças, coisas voltadas ao urbano, prefeituras, sítios. Os comerciantes também, todos precisam ter as suas calçadas em ordem, o serviço precisa de velocidade para a loja não ficar tanto tempo fechada.”

A empreendedora diz, porém, que sempre fez alguma atividade extra mesmo quando era professora, para complementar a renda, e chegou a ser sócia em uma loja de alimentos, mas somente agora está sozinha à frente de um negócio. Ele tem, contudo, o suporte das duas filhas arquitetas. “Elas têm as carreiras delas, mas dão apoio.”

Experiência a seu favor
A experiência é um dos aspectos citados por especialistas como positivo na hora de empreender após os 50 anos, já que aprendizados e vivências com atividades em outras empresas podem ser aproveitados na gestão do próprio negócio.

“Existe um trade-off [jogo de perde-ganha] de experiência, networking e recursos financeiros versus não ter um custo alto de vida, responsabilidade pessoal com filhos (…). Empreendedores mais experientes têm uma bagagem de conhecimento, networking e recursos financeiros que pode acelerar e muito o crescimento do negócio e reduzir os riscos do projeto não virar”, avalia Marcos Simões, diretor de serviços a empreendedores da Endeavor, organização internacional sem fins lucrativos que promove o empreendedorismo de alto impacto.

População envolvida na criação de um novo negócio no país (% dentro de cada faixa etária)
Faixa etária 2008 2009 2010 2011 2012
18 a 24 anos 15,4 13,5 17,4 12,82 14,2
25 a 34 anos 12,8 17,9 22,2 17,85 19,2
35 a 44 anos 13,7 18,7 16,7 17,24 18,7
45 a 54 anos 10,4 14,4 16,1 13,06 12,1
55 a 64 anos 3 6,5 9,5 9,33 8,3
Total 11,1 14,2 17,5 14,89 15,4
Fonte: Pesquisa Global Entrepreneurship Monitor

“Abrir um negócio próprio no mesmo ramo em que se trabalhou é uma vantagem, por já conhecer a atividade”, afirma Barretto. O presidente do Sebrae lembra, ainda, que que outro ponto a favor é a possibilidade de se dedicar a uma atividade que o empreendedor goste – o que pode não ter acontecido na vida anterior como como funcionário.

Ter mais recursos para investir, em comparação aos mais jovens, é outro fator positivo do empreendedorismo na terceira idade, avalia Carlos Wizard Martins, dono da rede de escolas de idiomas Wizard e autor do livro “Desperte o milionário que há em você”. Segundo ele, 20% dos novos franqueados na rede têm mais do que 50 anos.

Martins também cita o aumento da expectativa de vida. “Hoje, a nossa população está vivendo mais, e vai viver mais e em função da qualidade de vida, do avanço da medicina, vai ter longevidade maior do que os antepassados tiveram (…). O mercado de trabalho ainda é discriminatório. No mundo do empreendedorismo não tem essa barreira, essa limitação.”

Microempreendedor Individual

A administradora de empresas aposentada Yeda Mattos, de 72 anos, por exemplo, aproveitou o tempo livre após a aposentadoria para fazer artesanato. Cadastrada como Microempreendedora Individual (MEI), ela afirma que hoje tem um faturamento médio mensal de aproximadamente R$ 5 mil com a venda de produtos em patchwork (trabalho manual com retalhos de tecidos).

Microempreendedores Individuais (MEIs) – em março de 2013

Faixa etária Número de MEIs Porcentagem
16 a 17 anos 586 0,02%
18 a 20 anos 47,4 mil 1,64%
21 a 30 anos 726,7 mil 25,16%
31 a 40 anos 948,9 mil 32,85%
41 a 50 anos 687,1 mil 23,79%
51 a 60 anos 368,5 mil 12,76%
61 a 70 anos 91,2 mil 3,16%
Acima de 70 anos 17,8 mil 0,62%
Total 2,8 milhões 100%
Fonte: Portal do Empreendedor

De acordo com dados do Portal do Empreendedor, havia, até 31 de março deste ano, 2,9 milhões de MEIs no país, sendo 478 mil com mais de 50 anos (16,5% do total). O MEI é a pessoa que trabalha por conta própria e se legaliza como pequeno empresário. Para ser um microempreendedor individual é necessário faturar no máximo até R$ 60 mil por ano e não ter participação em outra empresa como sócio ou titular.

Yeda conta que trabalhou a vida todo na indústria química em Camaçari, na Bahia, mas sempre viveu em Salvador (ela ia e voltada diariamente). Após se aposentar definitivamente, com 60 anos, descobriu no artesanato uma forma de continuar a trabalhar. “Quando fiquei mesmo em Salvador todos os dias, imaginei o que poderia fazer. Busquei um instituto que dava aulas de artesanato, o primeiro que fiz com 60 anos foi o de patchwork, depois fiz outros cursos de tecelagem”, diz.

Após um problema no joelho, ela passou a fazer apenas trabalhos de patchwork. “Faço tudo sozinha e à mão. Vendo nas feiras indicadas pelo Sebrae e nas feiras de diversos outros lugares, feiras do município”, explica.

Fonte: http://www.conesulnews.com.br/brasil-mundo/confira-dicas-para-recomecar-apos-os-50/80589/

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